A história nos auxilia muito na conscientização das causas e efeitos de muitos acontecimentos e feitos humanos. Podemos retirar dela lições de vida, conceitos políticos, filosóficos, econômicos e muitos outros, reorganizando nossos novos processos históricos. Dentre o vasto campo da história do mundo, podemos citar os efeitos desastrosos, embora norteadores, dos que incorporaram as noções de superioridade de supremacia, a subjugar os denominados inferiores, impuros ou imperfeitos.

Na realidade histórica o marco da exclusão x inclusão vem desde os tempos mais remotos quando, deficientes ou diferentes dos padrões dos grupos, eram associados a causas sobrenaturais, a superstições e desconsiderações na prática da sobrevivência. Muitos bebês nascidos fora dos padrões estipulados pela sociedade eram lançados aos lobos ou jogados do alto dos penhascos, ou pelo menos, escondidos pelos pais e ignorados pelos grupos aos quais deveriam pertencer. (Mazotta, 1999)

As diferenças costumam ser marcantes na existência, porém não haver um reconhecimento ideal nas percepções humanas, como se fugissem da “boa forma gestáltica” ou representasse riscos à noção de “normalidade” a qual se pensa pertencer. Muitas foram às lutas históricas travadas a favor da liberdade, da igualdade de direitos, da valorização e da diversidade. Tem sido muito lenta a conscientização humana e social quanto à fraternidade universal. Parece ser muito difícil conviver, abrir-se para o novo, o diferente, o múltiplo. É como se a estranheza também fosse um fator ameaçador à integridade do homem universal.

Não só os primitivos desprotegiam seus pequenos deformados ou frágeis, por considerá-los fora das possibilidades de vida e trabalho, as civilizações antigas o faziam sob o peso de valores estéticos, como gregos e romanos cuja sobrevivência e poder dependiam de força e beleza atlética.

Valores históricos e humanos: os processos de exclusão 1O corpo saudável preferido pelo greco-romano não deixava espaço para qualquer outro tipo físico, estes eram razão de desprezo, castigo ou eliminação.

Não foi muito diferente na Idade Média, quando as noções de virtude e perfeição, considerava os imperfeitos como criações demoníacas, intoleráveis à imagem e semelhança do Criador. Por outro lado, foi o marco cristão, os valores do cristianismo que ensinaram ao mundo muito da noção de perdão, caridade, fraternidade, resgatando noções de aceitação e acolhimento.

Muitos foram os “imperfeitos” acolhidos em asilos e conventos, afastados da convivência social, por questões de piedade. Foi, e tem sido, em longo período, talvez latente, em que a valorização incondicional de homem, pudesse se fazer presente. Na história do mundo, sofreram escravos, pobres e negros, sofrem os humildes, os diferentes em crenças, sofreram judeus e outros tantos.

Apesar de a modernidade ter-se aberto para o conhecimento científico e noções de valores relativos e mutáveis como o universo, ainda encontramos inúmeras formas de exclusão x inclusão. Não podemos nos queixar das lutas opostas, elas existiram e existem, muitas teorias e estudos foram desenvolvidos a favor da compreensão das diferenças humanas e muitos se sacrificaram por isso.

Alguns países se preocuparam com deficientes, crianças especiais e pessoas com necessidades educativas especiais, despertaram para o poder da aprendizagem de surdos, mudos e cegos; alguns valorizaram sujeitos no esporte, e criaram estilos de campeonatos para deficientes físicos. Foram abertas oportunidades de estudos para crianças em salas de educação especial mesmo em meio às rotulações, descrenças, escárnios e desmotivações. Instituições de apoio apareceram em todo o mundo, inclusive no Brasil, mas o processo caminhou bastante lento e pouco efusivo. Ressalta-se aqui a conquista fabulosa de Louis Braille (1824) que, aos 15 anos, sendo cego, consegue criar um sistema de escrita e leitura, com base em pontos. Foi realmente um ganho enorme no mundo dos excluídos pelo dito infortúnio da cegueira.

Mas, a disposição de luta humana não pode parar jamais, e as causas justificam o processo de transformação de valores a favor das conquistas. Parece que a guerra dos cem anos não foi mesmo em vão, os trabalhos da Europa e das Américas a favor da Educação e dos direitos humanos tiveram seus efeitos. Os protestos históricos pela liberdade das raças, pela valorização no trabalho, pelas explicações científicas contidas nas diferenças, pelas revisões das estruturas político-econômicas e outros permitiram abertura da sensibilização e da conscientização humano social.

Afinal, a nova era da globalização está instalada; vemos hoje fluir um novo cérebro com uma consciência planetária, alargam-se as noções de transversalidades, de visualizações, de holismos e multiculturalismos integrados. A alteração de paradigmas é uma realidade palpável, e parece mesmo, que a única certeza é a das rápidas mudanças ou evoluções, que nem sempre são previsíveis.

E, com tudo isso, abrem-se espaços novos para os excluídos, numa justa tentativa governamental, social e institucional de resgatar seus direitos, como pessoas e cidadãos, em processo de inclusão. Percebe-se que está diminuindo o tipo de adormecimento da humanidade. Quanto ao valor do próximo, observa-se que, mesmo sem saber como, plenos de incertezas, carregados de carências de recursos didático-pedagógicos, os educadores abrem corações e mentes para receber os incluídos nas escolas regulares.

Ao nos depararmos com situações como essas, tornam-se comum, em nossos pensamentos, o surgimento de indagações retóricas como – O que se pode fazer por eles? Como fazer de maneira certa? Com todas as oportunidades de capacitação e acompanhamento existentes, ainda se tem inúmeros questionamentos e poucas respostas sobre a postura que os profissionais, atuantes nessa vertente da educação, devem tomar.

Nesse sentido, podemos ressaltar as nossas reflexões psicopedagógicas, como se é possível acreditar que muitos de nós o fazem em diferentes lugares e situações. A Psicopedagogia, numa inclinação humanística, interacionista e sócio-histórica, conseguiu, em pouco tempo, e em meio às lutas e divergências, analisar sobre os determinantes naturais e ambientais construindo-se como uma força nova, plena de diferentes saberes e sensibilidades, a favor do homem em seu processo pessoal e social, de construção do conhecimento, fugindo do peso das destinações.

Não ignorando os reflexos, automatismos, programações biofuncionais da vida humana, nem as forças estimulantes e condicionantes do homem cultural em sua ecologia familiar e escolar, pode a psicopedagogia ver o sujeito como uma totalidade única em sua especificidade, em seu estilo interpretativo de si, e, de mundo a operar sobre a realidade, entre sonhos e objetividades.

Temos uma visão de mundo que nos permite perceber a evolução de novas formas estruturais de pensamento/ação, construídas filogenética e ontogeneticamente a cada nova geração. Valorizamos todo o ser, por si mesmo, e em todo o seu esforço, e acreditamos na ação educativa como uma relação de sensibilidade e cognitividade, plena de acolhida, reconhecimento e conhecimento.

Cremos na comunicação efetiva entre aquele que aprende e aquele que ensina. Acreditamos que a chave do sucesso da aprendizagem possa estar na verdadeira comunicação da intersubjetividade em seu desejo profundo de conhecimento.

Pode ser que cada um, como eterno aprendiz da vida, possa aprender com seu corpo inteiro, interiorizando o mundo interpretado, refletido, superado e transformado, com a plena certeza de fazer parte real deste todo maravilhoso!

  1. MAZZOTA, M. J. da S. Educação Especial no Brasil: história e políticas públicas. 2. Ed. São Paulo: Cortez, 1999.

Publicação sugerida pelo autor.

10 Comentários Respondidos

  • Marciani Vieira Memeli  8 de julho de 2017 em 15:34

    E muito triste pensar que antigamente todas as crianças que nasciam com alguma deformidade eram abandonadas ou sacrificadas,imagino como ficava a mãe,pai e familiares , Hoje eu sei que tem varias instituição que trabalham para ajudar as famílias e crianças com algum problema, Tive a oportunidade de estagiar em uma escola e poder ajudar uma criança com autismo e aprendi muito com ela, cada evolução dele eu ficava muito feliz pois pude ajudar-lo a se desenvolver, Vou guardar esse aprendizado para o resto da minha vida ,

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  • Kelly Pechincha De Campos  18 de julho de 2017 em 16:12

    Os reflexos do passado a esse tema ainda são vistos na atualidade, não mais com tanta agressividade ou descaso pois hoje existem leis que garantem a inclusão de pessoas com necessidades especiais.
    Porém isso não quer dizer que eles são vistos ou totalmente incluídos em nossa sociedade, temos exemplos claros quanto a isso nas escolas que diz incluir mas que não tem profissionais realmente preparados para atende-los, em um espaço físico sem estrutura que possa contribuir para o processo de ensino aprendizagem desses alunos.
    A inda é um processo longo para a total inclusão estamos a engatinhar nessa jornada.

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  • lidia da cunha freire fernandes  18 de julho de 2017 em 18:44

    Infelizmente, durante muitos e muitos anos os portadores de necessidades eram vistos como “monstros, semi-deuses, coisas etc.”Muitos eram mortos, jogados em penhascos, em fogueiras ou deixados presos como em jaulas , totalmente excluídos da sociedade, sem qualquer condição humana.Não só portadores de nee mas também os negros que durante muito tempo foram escravizados, sem oportunidades.Muito tem se trabalhado para uma melhor inclusão e aos poucos vamos tentando reverter esse triste quadro de exclusão.

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  • Adriana Lano  19 de julho de 2017 em 17:06

    Como podemos ver o processo de inclusão é uma parte bem difícil tanto para criança e também para os pais, pois existem pais que não aceitam a deficiência que a criança tem. Sendo assim fica difícil trabalhar porque muitos não levam nem no médico para saber o que realmente a criança tem e você Professor, coordenador, pedagogo e diretor veem quê a criança tem alguma deficiência. É muito triste ver que antigamente as crianças que nascessem com alguma deficiência o povo dizia que a criança era impura jogava a criança lá de cima do penhasco. Hoje em dia tem muitas mães que quando descobrem que estão grávida e que o filho vai ser um deficiente ficam desesperadas não sabe o que fazer e até mesmo querem tirar a vida daquela criança. Eu acho que deveria ter um pouco mais de conscientização para as mães aceitarem aquelas crianças. Até mesmo projetos que quando a mãe descobrisse que seu filho poderia vir com alguma deficiência ela já fosse encaminhada pelo posto de saúde para um projeto e ir estudando sobre aquela deficiência que seu filho ou filha iria nascer.

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  • Gabriela Novelli  19 de julho de 2017 em 17:19

    É triste pensar que numa sociedade é preciso seguir estereótipos para ser aceito. Acredito que, hoje, essa “linha” de exclusão se aumenta a cada dia através da mídia para alienar a massa. É preciso o apoio governamental e o crescimento “psicológico” do coletivo para assim entender que o nosso externo não é válido ao pensar em tantas qualidades que é excluída a cada dia por um não ou uma porta fechada , quando se olha apenas o físico. Temos muito para oferecer de inúmeras maneiras independente se somos portadores de nee , negros , brancos, obesos ou magros.

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  • Larissa Volkers Pimentel  20 de julho de 2017 em 12:37

    No texto relata sobre a desigualdade na sociedade, é muito triste que antigamente as crianças nascidas com algumas deficiência, ela era lançados aos lobos ou jogados do alto dos penhascos , não tinha valor algum pela sociedade, essa diferenças costumam ser marcante na existência, porém não haver um reconhecimento ideal nas percepções humanas.

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  • Rayane Silva Soares Bastos  20 de julho de 2017 em 14:00

    Vivemos em uma sociedade que infelizmente a aparência conta muito, ou seja, se você não se encaixar nos padrões de “beleza” exigidos, você é automaticamente excluído do meio. É triste pensar que no passado crianças com necessidades especiais eram sacrificadas pelo simples fato de terem nascido diferente. Nos dias atuais as crianças especiais são protegidas por lei e tem muitos direitos, porém ainda nos deparamos com barreiras, onde muitos ainda insistem em discriminar o outro, por esse motivo devemos conscientizar não só as crianças, mas também os adultos que ser diferente é ser normal.

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  • Fábio Xavier Calais  20 de julho de 2017 em 18:18

    A desigualdade social envolvendo pessoas com necessidades especiais é fato histórico desde os tempos remotos,com o desenrolar dos anos, essa concepção foi mudando chegando aos dias atuais com uma visão diferenciada,onde as pessoas especiais estão conquistando vagarosamente o seu direito na sociedade,em especial nos centros educacionais.
    Neste sentido, cabe professor conscientizar -se e fazer a diferença no processo educacional dessas pessoas.

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  • Fabiany Gomes Soeiro  22 de julho de 2017 em 11:52

    Nossa esse texto é uma lição de vida e podemos ver como o diferente causou estranheza no passado e no presente lutamos e muito pela inclusão.

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  • Fabiany Gomes Soeiro  23 de julho de 2017 em 20:10

    É bom vermos como a historia evolui, desde os tempos da não aceitação das crianças diferentes.Como buscam seu espaço ate hoje por respeito e reconhecimentos.

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